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Meu alvo é Cristo! Não me desvio nunca mais!

Por que há tantos afastados de Deus?

sábado, 10 de julho de 2010



EDIÇÃO 81 > ESPECIAL


Por que há tantos afastados de Deus?

Uma igreja desviada

Uilians Santos

Faz quatro anos que os domingos do eletricista aposentado José
Boaventura Boas, 56 anos, não são mais os mesmos. No primeiro dia da
semana, ele gosta de ficar no bar com os amigos, jogar dominó, discutir
os resultados da rodada, observar as mulheres, beber e freqüentar
bailes. Até pouco tempo, ele vivia uma outra realidade. Tinha uma
rotina tão agitada que mal conseguia parar para almoçar no dia em que
normalmente as famílias se reúnem.


Durante os 25 anos que liderou, implantou e pastoreou igrejas de
três denominações da Assembléia de Deus, os domingos de Boaventura
começavam cedo com as aulas da escola dominical. Na seqüência, visitava
casas de irmãos, doentes nos hospitais e ainda liderava evangelismos
nas ruas de Praia Grande (SP). À tarde, quando conseguia um tempo
livre, ele usava para preparar a mensagem que ministraria no culto da
noite. “O envolvimento com a obra de Deus era um marco em minha vida.”

Entretanto, por causa de desavenças, uma história iniciada em
1º de dezembro de 1979 foi interrompida. Intrigas, mentiras, calúnias e
acusações, jamais comprovadas, mas proferidas por seus líderes, o
fizeram tomar uma decisão radical: abandonar a casa de Deus.

Boaventura integra uma categoria de crentes que não pára de
crescer: os desviados. Estima-se que, atualmente, existam entre 30 e 40
milhões em todo o país. Comparando-se com os dados do último censo
populacional, que revelou a existência de cerca de 27,2 milhões de
evangélicos, a quantidade de “ovelhas perdidas” é maior do que a igreja
oficial. Se esses ex-irmãos que foram evangelizados, discipulados e
participaram de cultos permanecessem, a igreja brasileira seria de
aproximadamente 70 milhões de crentes, ou seja, quase a metade da
população, que é de 180 milhões. Antes de ser vista como uma “ameaça”,
a existência desse enorme contingente deve ser compreendida por líderes
de todo o Brasil – como um sinal de alerta de que algo não vai bem.
Além disso, a realidade mostra que é preciso rever conceitos e práticas
para que esse jogo possa ser revertido.

Pastor Sinfrônio Jardim Neto, presidente do Ministério Jesus
Não Desistiu de Você, que há 14 anos atua na recuperação de afastados,
acredita que a idéia dominante em muitas congregações, que prioriza
templos lotados sem se importar com os que saem, é um dos ingredientes
que colaboram para o problema acontecer. “Infelizmente, 90% das igrejas
não estão preocupadas com aqueles que saíram. Porém, sabemos que buscar
a ovelha perdida é uma visão que está no coração de Deus.”

Referência no assunto, com livros publicados e vários
seminários e palestras ministrados no Brasil e exterior, ele explica
que a reconquista é uma visão que a igreja perdeu ao longo dos anos,
mas que atualmente se faz necessária para que os que saíram retornem.
“Se a igreja não for atrás dos desviados, a maioria permanecerá no
pecado e morrerá sem Deus. Para ser motivada nessa reconquista, a
igreja precisa enxergar os soldados feridos com os olhos de compaixão
do Senhor Jesus.”

Este, porém, não é um problema exclusivamente brasileiro. Basta
lembrar que um dos motivos do enfraquecimento do Evangelho em muitas
nações se deu basicamente porque as pessoas deixaram de ir à igreja e
passaram a se ocupar com outras coisas. A grande diferença é que, no
Brasil, ao mesmo tempo em que saem muitos, outro tanto acaba entrando,
o que no final gera um equilíbrio. Para descobrir os motivos da evasão,
a Life Way Research (www.lifeway.com) realizou um estudo nos Estados
Unidos e percebeu que vários fatores influenciam-na.




Boaventura já foi pastor e não consegue perdoar as pessoas que o levaram a se desviar







Segundo o levantamento, 59% das pessoas decidiram abandonar a casa
de Deus por causa da mudança de situação de vida (transferência de
cidade, divórcio, nascimento de filhos, morte na família etc.). O
desencantamento com os membros e pastores foi apontado por 37% dos
entrevistados. A pesquisa também revelou que 19% estavam ocupados
demais para participar das atividades da igreja; já 17% disseram que as
responsabilidades da casa e família contribuíram para o afastamento. O
comportamento dos próprios membros representou 17% dos ouvidos. E
outros 12% revelaram dificuldades de envolvimento como maior empecilho.

Foi justamente para descobrir as causas que levam as ovelhas a
se perderem que em outubro do ano passado a Faculdade Teológica
Sul-Americana (FTSA), em Londrina (PR), promoveu sua V Semana de
Estudos com o título “Decepcionados com a Igreja”. O evento, que contou
com a participação de acadêmicos, integrantes da comunidade e a
presença do pastor Caio Fábio, tentou encontrar respostas plausíveis
para questões como: Por que as pessoas se decepcionam com suas igrejas?
Quais são os motivos de suas frustrações e desilusões? Que principais
motivos levam as pessoas a abandoná-las? “Um pastorado que não busca
refletir e entender os motivos que as pessoas possuem para sair da
igreja é um pastorado sem a perspectiva do cuidado. Cuidar é se
importar”, alerta Jorge Henrique Barro, professor de Teologia Prática
da FTSA. “O que deve nos motivar a refletir sobre este assunto é o
exemplo de Jesus, que pergunta: ‘Qual de vocês que, possuindo cem
ovelhas, e perdendo uma, não deixa as noventa e nove no campo e vai
atrás da ovelha perdida, até encontrá-la? E quando a encontra, coloca-a
alegremente nos ombros e vai para casa. Ao chegar, reúne seus amigos e
vizinhos e diz: Alegrem-se comigo, pois encontrei minha ovelha
perdida’”, frisa, citando Lucas 15.4-6.


LONGE DE CASA

Brigas internas, legalismos, decepções com a liderança, sensação
de abandono, falsas profecias e promessas de prosperidade não
concretizadas são os principais motivos, de uma lista imensa, que
levam, cada vez mais, à não-permanência na igreja. Entretanto, é
preciso deixar claro que nem todos os afastamentos são motivados por
problemas eclesiásticos. Em muitos casos, eles acontecem devido a
questões pessoais.

O morador de rua Fábio Paixão França, 37 anos, tem consciência
de que seus próprios erros o afastaram do convívio da igreja. Com
passagem em três congregações (Cristo é a Vitória, Bola de Neve e
Cristo é a Resposta) e uma casa evangélica de recuperação de
dependentes químicos, ele roga por uma nova chance: “Eu peço que Deus
derrame mais uma gota de seu sangue para que possa ter vergonha e
voltar a servi-lo da maneira correta”.

Longe da igreja, os desviados acabam adquirindo características
e práticas parecidas. Normalmente, tornam-se arrogantes, frios e
indiferentes. Embora estejam vivendo no pecado, ao mesmo tempo, alguns
nutrem uma “fagulha de Deus acesa no coração”. O contato com pessoas
que vivem longe do Senhor fizeram com que Jardim Neto descobrisse que
alguns afastados sentem saudade de Cristo, temem o inferno, possuem a
convicção do pecado e até desejam retornar. “Muitos, por acharem que
estão livres de Deus, fazem coisas horríveis. Mas ainda existem aqueles
que conservam parte do temor de Deus e se esforçam para não se
entregarem completamente ao pecado.”

Na internet é possível encontrar páginas, comunidades e salas
de discussões que reúnem afastados de várias idades e regiões do
planeta. Nesses pontos de encontros virtuais, os membros conversam
sobre vários assuntos, mas que geralmente estão relacionados à decisão
que tomaram. Muitas vezes, utilizando-se do recurso do anonimato,
integrantes abrem o coração e mostram-se arrependidos, como se vê neste
depoimento postado na comunidade Desviados que Ainda Amam a Jesus, uma
das maiores sobre o tema no Orkut: “Pra mim, foi o fim. Fiquei sem
chão, mas depois percebi que teria de procurar um modo secundário de
felicidade que nem se comparava à plenitude que eu havia provado ao
lado de Cristo”.

Criada na Congregação Cristã do Brasil em Itapira (SP), Karina
Felix, 20 anos, também integra uma dessas comunidades virtuais. Há
cinco anos, decidiu que sairia da igreja quando descobriu o valor de
“usar brinco e vestir calça jeans”. Algo que as rígidas normas da
igreja não admitem. Depois de experimentar muitas coisas, namorar,
curtir baladas, ela garante que adquiriu uma nova percepção do
cristianismo e descobriu que pode alimentar sua fé mesmo fora da
doutrina. “Deus está em todos os lugares e cuida de todos os seus
filhos. Ele nunca me deixou e eu nunca perdi a fé nEle. Igreja é feita
de tijolo e cimento, coisas materiais”, declara. Embora sinta falta de
cantar os hinos junto com a orquestra, ela acredita que se sentiria
envergonhada se voltasse como se nada tivesse acontecido. “Acredito que
eu não volto mais, não tenho forças. Se a volta estiver nos planos de
Deus, Ele vai dar um jeitinho, o que é dEle ninguém leva.”


COMO AJUDAR


Reginaldo von Zuben, professor de Teologia Sistemática da Faculdade
Teológica Sul-Americana, explica que três pontos precisam ser
priorizados pela igreja para que o número de desviados pare de crescer.

O primeiro é acentuar a teologia da graça. É necessário que
ocorra um rompimento com a lógica mercantilista-individualista baseada
na troca com Deus. “O critério para nos relacionarmos com Deus, assim
como recebermos Suas bênçãos, se dá tão somente pela Sua graça, amor e
benevolência.”

A manifestação ou o testemunho da graça no dia-a-dia da igreja
é o segundo aspecto que deve ser ressaltado. O que dignifica e valoriza
as pessoas, apesar da condição de pecadoras e sofredoras em que se
encontram. “Esse ponto se torna um desafio imenso para a igreja, porque
ela terá que abandonar preconceitos, moralismos, tradicionalismos e a
prioridade em ser rica, grande e vistosa”, diz.

O terceiro é a preocupação com o cuidado que as pessoas devem
ter em suas fragilidades e problemas. “Muitos abandonam a igreja por
não se sentirem acolhidos, seguros e assistidos.

A teologia do cuidado é fundamental hoje em dia em toda e
qualquer forma de missão, discipulado, grupos pequenos, culto e
atendimento pastoral.”


LAR AFETADO

José Wanderley Vieira Gomes não lê mais a Bíblia e não consegue
orar há quase um ano. O “esfriamento” começou quando problemas
conjugais surgiram em seu casamento de 22 anos. A crise levou José e a
esposa à separação. Além do fim do matrimônio, toda a família de
evangélicos – o casal e cinco filhos – deixou a igreja. No mesmo
período, o patrimônio familiar praticamente desapareceu. Wanderley
vendeu duas casas e perdeu um carro num negócio onde o comprador levou
e não pagou. Hoje, ele vive endividado e distante da casa de Deus, mas
prefere ser otimista: “Tudo o que o inimigo me tirou, Deus vai me dar
de volta”.

A presença da igreja na vida de Wanderley é tão marcante que,
no trabalho, os companheiros o chamam de “abençoado”. O apelido foi
dado por seu chefe que, após anos de convívio, percebeu que muitas das
vezes em que o irmão orava, os pedidos se concretizavam. Numa das
ocasiões, um roubo que geraria muitos prejuízos à empresa foi
solucionado depois que ele clamou ao Senhor. “Tudo aquilo que pedia
prosperava”, recorda. O ex-evangelista, dizimista e colaborador fiel da
Assembléia de Deus Ministério de Santos sabe que precisa retornar à
igreja para que as bênçãos voltem a fazer parte de sua história. “Um
dia eu volto, e acredito que Deus fará muitos milagres em minha vida.”

Os reflexos das modificações ocorridas nos últimos anos na
família Boas podem ser constatados observando a casa onde moram. Depois
que Boaventura deixou suas atividades na congregação, a alegria deu
lugar a um sentimento de tristeza. A Bíblia, que era o livro que regia
as decisões de toda a família, foi esquecida num canto. Dos cinco
integrantes, apenas Maria da Luz Norberto Boas, a mãe, continuou na
caminhada com Cristo.

Mas nem sempre foi assim. Nos tempos em que Boaventura estava
ativo, o sobrado onde residia – uma área construída de 320 metros
quadrados, no bairro Quietude, em Praia Grande – era tão freqüentado
pelos irmãos que era considerado uma extensão da igreja. Além da
presença constante dos crentes, o local abrigou a rádio Novas de Paz
FM, que além de ser um instrumento de propagação do Evangelho,
conseguiu um feito: a regularização junto ao Ministério das
Comunicações.




Há 14 anos, o pastor Sinfrônio Jardim Neto realiza seminários e publica livros que despertam a igreja para o problema





Com sete quartos, era o porto seguro de missionários, evangelistas,
pastores e irmãos que visitavam a cidade para cumprir o “ide” de Jesus
e onde sempre encontravam abrigo. Olhando para tudo o que aconteceu,
Maria da Luz sente saudades dos momentos alegres e ora pelo retorno do
marido para continuar a boa obra: “Eu creio no meu Senhor. Um dia Ele
vai me dar vitória e trazer os meus para a casa dEle. Criei os meus
filhos na igreja, que nasceram num berço evangélico; não os entreguei
ao mundo, mas ao Senhor. A Palavra de Deus diz que quanto maior a luta,
maior a vitória”.

Boaventura tem certeza de que abandonar a igreja, onde
vivenciou “momentos de sublime alegria”, não foi a melhor decisão que
poderia ter tomado. No entanto, os anos de afastamento não foram
suficientes para que esquecesse os muitos ensinamentos aprendidos na
época em que a Bíblia foi a sua fiel companheira. Ele recorda, por
exemplo, que saber perdoar é uma atitude que faz diferença na vida de
qualquer cristão. Infelizmente, isso é algo que ele não consegue mais
praticar. “Por tudo o que fizeram comigo, eu que sou o errado. Deus não
mandou eu me desviar da igreja, não mandou eu sair da frente do
trabalho. Os homens me expulsaram. Mas, para a nossa felicidade, temos,
em cada esquina, uma igreja aberta. Se alguém quiser morar no céu, tem
que ter o dom do perdão. O maduro em Deus sabe perdoar o inimigo,
aquele que fez o mal. Isso é a coisa mais importante, a essência do
Evangelho, mas é aí que estou me perdendo”, desabafa, emocionado. “Foi
muito mais fácil eu sair do samba, do envolvimento com mulheres
alheias, da cachaça, da maconha e aceitar a Jesus, por quem eu chorava
de alegria quando estava na igreja, do que, agora, voltar.”


AÇÕES ISOLADAS

Apesar de ser um problema estarrecedor, ainda são poucas as
igrejas que se preocupam em recuperar irmãos desviados. Uma que
concentra esforços para ajudar ovelhas a encontrarem novamente o
caminho é a Assembléia de Deus em Augusto Vasconcelos, no Rio de
Janeiro. Desde 1997, o ministério realiza, anualmente, a Cruzada de
Restauração Jesus Não Desistiu de Você, a partir dos métodos do pastor
Jardim Neto. Nesse período, as cruzadas têm conseguido resultados
significativos. Em média, cerca de 100 ex-evangélicos retornam à igreja
por ano. Durante a cruzada são realizados cultos e quem recebeu três
visitas é convidado para o evento.

Para conseguir esse resultado e reconquistar as almas feridas,
pessoas da igreja são treinadas. Uns recepcionam os afastados e outros
recebem orientações para atuarem na visitação. O pastor João Neres de
Oliveira Neto, vice-presidente da igreja e responsável pelo ministério
de resgate dos afastados, explica que a luta espiritual é intensa:
“Geralmente, as pessoas desviadas estão feridas e nem querem ouvir
falar de igreja. Na última cruzada, um visitante colocou uma faca em
cima da mesa para intimidar os irmãos. Porém, com algumas palavras e o
agir do Espírito, ele se acalmou”.


FILHO PRÓDIGO

Entre os 18 e 19 anos, Ari Rodrigues Cabral levava uma típica
vida de crente. Membro da Igreja Universal, na Lapa (bairro situado na
capital paulista), participava dos cultos, das atividades, dizimava, e
logo viu a bênção de Deus se concretizar. “Vivia uma vida sem
preocupações”, recorda. Entrando em plena juventude, acabou seduzido
pelas luzes do mundo e aos poucos foi se afastando do convívio da
igreja, até se desviar completamente.

Nesse período vivenciou muitas coisas marcantes. Com uma antiga
namorada, foi pai de duas meninas. Com novas amizades, tornou-se
usuário de drogas, entrou para a criminalidade e acabou cumprindo pena
de seis anos de reclusão por roubo e homicídio. “Na época, Deus nem
passava pela minha cabeça, eu só queria curtir.”

As iniciativas que auxiliam na recuperação de desviados só
obtêm êxito se a pessoa der o primeiro passo em direção a Deus. Embora
reconheça que ainda não esteja livre dos vícios adquiridos nos anos que
passou nas ruas e na prisão, Ari quer esquecer tudo o que vivenciou. A
fim de retomar uma história interrompida pelas ofertas mundanas, antes
mesmo de completar uma semana de liberdade ele passou a freqüentar uma
igreja evangélica na cidade de Santos. Buscando mudança profunda, fez
uma promessa que pretende cumprir: “Eu e minha esposa iremos à igreja
pelo menos duas vezes por semana”. Seja bem-vindo, irmão, pois Jesus
Cristo o espera de braços abertos.



Saiba mais sobre o assunto:
www.jesusnaodesitiudevocê.com.br
www.ftsa.edu.br
www.lifeway.com





FONTE: http://www.revistaenfoque.com.br

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